Viva la vida – por Andréa Fortes

Viva la vida.

Eu fiz uma formação em Constelações Sistêmicas há alguns anos, mas não comentava muito o assunto. Para mim, era algo de auto-conhecimento, muito rico mas ainda pouco difundido. Felizmente isto foi ontem e hoje muita gente já ouviu falar no Bert Hellinger, o “pai” do conceito. Mais feliz ainda eu fiquei quando assisti, recentemente, o novo filme da Pixar, chamado no Brasil de “Viva, a vida é uma festa”. Fora daqui, o nome é “Coco”, mas, pela semelhança com cocô, trocaram. Coco era o nome da “abuela” de Miguel, uma simpática senhorinha cheia de histórias nos últimos fios de vida por aqui. Miguel, mais simpático ainda, é um menino no auge dos seus 12 anos, cheio de sonhos e de vida e que vê-se pressionado por padrões antigos familiares que não lhe fazem sentido. Ele é uma criatura embalada pela música, justo o tema proibido da família. Música é sinônimo de desgraça, tristeza, dor e mal agouro neste grupo consanguíneo de sapateiros.

Orgulho mesmo é fazer um bom sapato! Eis que ele, ainda puro de preconceitos começa a questionar esta tradição tão restritiva que lhe é imposta. Por que não pode cantar, tocar, se divertir? Por que não e o que há de errado? Ela respeita a família, obedece, mas algo maior que lhe toma e o faz transgredir. Trair a tradição em nome da inovação. Mais ainda, trair para honrar.
A peça que eu não canso de assistir da primorosa atriz Clarice Niskier, baseada na obra de mesmo nome, “A Alma Imoral”, do rabino Nilton Bonder, fala disto. Quantas vezes o pioneiro, o primeiro, o maker, o visionário, o apaixonado não precisou bancar uma “traição” do sistema para abrir portas para uma geração inteira a seguir? No caso do filme, que não contarei o enredo, é disto que se trata. Uma busca de algo que estava nela, na alma de Miguel, e que, por mais que a razão o “travasse”, havia algo maior que o convidada a navegar nas suas entranhas. A cura, ao contrário do que algumas vezes nos ensinaram, não está no não olhar para o que dói, machuca, mas acolher e dar colo, re-olhar com coragem e novos óculos. Esta é uma lei básica e linda da constelação: dar um lugar aos excluídos, agradecer, com todas as nossas forças, àqueles que vieram antes e, ao saber de suas histórias, saber também um pouco de nós. Honrando os antepassados e os reconhecendo, temos a bênção para seguirmos – e ampliarmos. O filme trata também de morte. Não só uma morte literal e física, mas do morrer ao sermos esquecidos. Com todo um contexto lindo de “lo día de los muertos”, no México, conta, de uma forma simples e poética da jornada que é seguirmos vivos enquanto somos lembrados. O Nuno Rebelo dos Santos, amigo querido das bandas de Portugal, uma vez comentou comigo este conceito. Pior que morrer, é morrer para os outros. Shakespeare, enquanto tiver sua obra viva e citada, não morrerá. E quantos morrem em vida, ao não terem projetos que os faça sentirem-se pulsando? Quantos tornam-se zumbis por não terem a força e vitalidade do pequeno Miguel que, apesar dos pesares e do que lhe é dito, enxerga com outros olhos e amplia o olhar da família toda? Eu te convido a olhar o filme. Vá sozinha ou vá com alguém querido. Vá e leve consigo seus antepassados. Vá e carregue suas crenças na bolsa. Deixe algumas na saída da sessão e se abra para um sorriso de criança que descobre o pulo do gato do filme. Permita-se descobrir que música toca sua alma infantil, o que te faz brilhar, qual é a tradição familiar que as mulheres da sua família passaram e que vibra pedindo passagem? O que você sabe das suas avós, bisavós, do seu território? Que curiosidades fizeram da sua família o que ela é hoje e qual o potencial para, daqui a cem anos, seus netos ou bisnetos falaram coisas incríveis sobre você? Hoje você é uma mulher, amanhã será a avó, a tia, aquele que passou e deixou. Qual será o seu rastro e que história você terá ajudado a escrever?

Quer saber mais sobre constelações sistêmicas? Eu escrevi um pouco a respeito neste artigo-série do draft: https://projetodraft.com/costuras-de-vida-parte-3-bert-hellinger-e-as-constelacoes-sistemicas/

Trailer do filme Viva, a vida é uma festa: https://youtu.be/TajmihrA1xw

*Andréa Fortes é filha da Irma e mãe da Carolina. Publicitária de formação, empresária, escritora e costureira de relações.