Precisamos rever o que significa sexo para as mulheres

Todos os dias, a fundadora da Prazerela, Mariana Stock, publica nas redes sociais conteúdos sobre a sexualidade feminina com uma abordagem acolhedora, embasada e inovadora. Em 2018, Mariana criou uma pesquisa online para entender, de forma íntima e anônima, como as seguidoras da Prazerela, estão vivenciando a própria sexualidade. Com a participação espontânea de 1370 mulheres, foi possível constatar que falar de sexo é falar de saúde, auto-estima, segurança e educação, além de reforçar a busca legítima das mulheres por mais prazer na sua intimidade.

As participantes da pesquisa são de todas as regiões do Brasil, com predominância do Sul e do Sudeste, e idades que vão de 18 a 60+ anos, tendo a maioria (83%) entre 21 e 40 anos. 76% se declarou heterossexual, 87% diz ser monogâmica quando está em uma relação e 33% está solteira. São mulheres que, de certa forma, estão predispostas a falar sobre sexo e sexualidade, pois já seguem a Prazerela e querem refletir sobre isso.

“O prazer está nela!”
Quando perguntadas sobre a forma que elas têm mais prazer, 27% diz ser quando o parceiro faz sexo oral, 22% quando são tocadas no clitóris e 10% quando são estimuladas na vulva. Quando se masturbam, 70% gosta de tocar diretamente no clitóris, sendo que 67% usa apenas as mãos e 21% se estimula com algum vibrador. Somente 17% tem prazer na penetração, enquanto quase 60% relata que a maior fonte de prazer está na estimulação externa do genital, ao contrário do que manda o script falocêntrico.

Desigualdade de prazer no sexo
Por mais que muitas mulheres já se sintam livres e bem resolvidas para falar sobre sexo, o que vimos na pesquisa é que parte das respondentes ainda tem algum tipo de limitação ou dificuldade para expor questões da sexualidade. Somente 43% conversa abertamente com seus parceiros e parceiras sobre o tema.
Um dado curioso deixa clara a desigualdade de prazer. Perguntamos sobre a frequência de orgasmos durante a masturbação e também durante o sexo: 74% das mulheres disseram ter orgasmos sempre que se masturbam, enquanto apenas 36% diz ter orgasmos frequentes nas relações sexuais. Quando questionamos sobre as principais dúvidas e dificuldades em relação à intimidade sexual, o foco é claro: as mulheres ainda se sentem pressionadas a chegar ao orgasmo durante a penetração.

“Esse é um dado social que reforça a nossa cultura falocêntrica, por outro lado, vai contra a anatomia feminina: o orgasmo pela penetração vaginal é raro, pois se trata de uma região pouco inervada”.

“Eu devo ter algum problema”
Quase todas as mulheres que entram em contato com a Prazerela chegam com a sensação de terem algum problema sexual. As principais queixas que surgem são: “Eu nunca tive um orgasmo”, “Eu não gozo na penetração”, “Eu não consigo me masturbar”, “Eu não tenho tanta vontade de transar quanto o meu marido”. Na pesquisa, 65% das mulheres afirmam já terem sofrido algum tipo de abuso, desses 25% foram abusos sexuais. As referências da sexualidade feminina ainda são muito traumáticas.

“A grande maioria das mulheres nunca teve educação sexual ou, quando teve, o foco foi sempre na perspectiva negativa envolvendo os riscos e consequências do ato sexual. Nunca foi ensinado que as mulheres podem ter prazer através da sexualidade, por isso, elas ainda buscam encontrar um problema físico que justifique a sua incapacidade de sentir prazer. O caminho é inverso, todas podem sentir prazer, a limitação é cultural”, explica Mariana.

“Será mesmo que temos menos desejo que nosso par?”

Outro ponto importante é o que as mulheres sentem sobre a libido: 59% diz que, quando estão em um relacionamento, o parceiro tem mais desejo sexual. Por que ainda existe este descompasso do desejo? Como aumentar a libido das mulheres e torná-la mais equilibrada no casal?
“Numa concepção social de que sexo é igual à penetração, a libido da mulher é diretamente afetada, uma vez que a grande maioria delas não sente prazer ao serem penetradas. Por isso, pesquisas que comparam satisfação sexual entre mulheres heterossexuais e mulheres bissexuais e homossexuais deixam claro que mulheres que se relacionam com mulheres estão muito mais satisfeitas”, completa Mariana. “Mas, isso não é para assustar os homens. Pelo contrário, está na hora deles perceberem que têm um corpo inteiro para transar e tirar um pouco o foco da tal penetração”, diz.