Quem sou eu? – por Carla Merlina

O que me fez começar a pensar sobre isso foi uma pergunta que um amigo do meu marido fez a ele…..”Mas o que a Carla faz?”
Na mesma semana, o marido de uma outra amiga me perguntou:
“Mas você trabalha?”

Curioso essas perguntas terem começado com um “mas…”, não é?

A primeira resposta que veio a minha cabeça foi:

“Estou trabalhando duro para encontrar uma nova profissão, já que precisei/decidi/atrai para minha vida duas mudanças que me fizeram/me deram a oportunidade de recomeçar/reconstruir o meu trabalho!”

Outras respostas possíveis:

1. Eu FAÇO muitas coisas….Você quer que eu faça uma lista delas? Está com tempo?

Acordo, me arrumo, ajudo meu filho a se arrumar, preparo o café da manhã, levo meu filho para a escola, volto para casa, tiro fotos do cotidiano, lavo a roupa, lavo a louça, limpo e arrumo a casa, cozinho, almoço, leio, estudo, faço cursos, pratico yoga, faço pinturas, escrevo para o meu blog, faço pesquisas na internet, pago contas, faço trabalho voluntário, encontro amigas para um café, visito museus, ando na rua, ajudo pessoas que acabaram de chegar na França e estão perdidas, vou no médico, vou ao supermercado, vou à padaria, faço coaching, desenvolvo meu novo projeto, compro roupas e coisas necessárias para a casa e a vida cotidiana, pego trem para me deslocar, caminho, converso com a minha família e amigos, facilito jogos, almoço, busco meu filho na escola, converso com a professora, dou banho e ajudo meu filho a se vestir, brinco com meu filho, faço o jantar, jantamos em família, lavo a louça novamente, coloco o meu filho para dormir, tomo banho, leio um livro, faço meditação, durmo, etc….enfim….uma vida normal, como qualquer outra….o que há de tão curioso em saber o que eu faço?

2. É claro que trabalho, eu trabalho muito e duro todos os dias…

3. Depende do que você chama de trabalho? Mas eu trabalho em muitas e diferentes coisas todos os dias!!

Mas, é claro que me deparei com o fato de que essas perguntas me incomodaram muitoooo….Por que será que essas perguntas me incomodaram tanto?

Aprofundando as minhas reflexões pensei:
Será que eu tenho mesmo que ter uma profissão? Só tenho valor se a tiver? E se eu não quiser ter? Na verdade, quando alguém pergunta sobre o que eu faço, se refere necessariamente à minha profissão ou não?

Não por acaso, na mesma noite dessas minhas reflexões recebi de uma amiga querida um podcast do Mamilos (detalhes no final do texto) chamado “Você não é o seu trabalho”. Uma discussão do conceito de trabalho entre 3 mulheres incríveis…

Tem algo mais providencial do que isso? Além de ficar muito feliz e impressionada com a sincronicidade da vida e a beleza de ter recebido esse material riquíssimo, eu voltei a refletir sobre o assunto.

Sigo aqui, compartilhando um pouco do conteúdo desse podcast e das 3 perguntas centrais que eram conteúdo dessa conversa:

1. O que você quer ser quando crescer?

Você já parou para pensar como o trabalho é central em nossa vida? Especialmente se nascemos em cidades grandes, em grandes centros que giram em torno do trabalho? Como é o meu caso…São Paulo…
Geralmente, fazemos essa pergunta para as crianças desde pequenas, como se elas não fossem nada até encontrarem um trabalho. É isso mesmo?

Confesso que não tinha pensado muito sobre isso, até me mudar para o Rio de Janeiro, onde vivi durante 6 anos, e descobri uma diferença nesses parâmetros. Lá as pessoas não queriam saber no que eu trabalhava e sim quem eu era. Uma cidade muito mais aberta e relacional. Os seus valores dizem mais do que o seu trabalho…Demorei a perceber isso e me adaptar a essa realidade, mas depois, me apaixonei por isso!! Me encontrei…..

Foi lá que fiz a minha mudança profissional mais importante, sai do mundo organizacional, onde eu não estava feliz.Nesse momento, o mundo se abriu. Descobri que podia fazer atividades múltiplas e de meu interesse. Minha vida se multiplicou….e se integrou mais aos meus reais valores.
Mas mesmo assim, eu ainda estava em uma zona de conforto. Uma das atividades que eu exercia era um trabalho formal com retorno financeiro estável…. O que me dava um certo conforto.

Até que um dia, mais uma mudança me encontrou…a mudança de país para acompanhar meu marido e minha família em uma expatriação. Assim, a vida me trouxe mais uma vez o desafio de deixar meus projetos e reconstruir algo novo em um novo lugar. Com isso, abriu-se uma outra oportunidade de reflexão, mas desta vez, um pouco menos confortável. Me deparei com uma página em branco e a chance de adquirir a consciência de que: Se eu não sou o meu trabalho, então, quem sou eu?

2. O que você faz?

No podcast os comentários sugerem que a nossa evolução social, passa por uma mudança na forma como fazemos essa pergunta. Em geral, perguntamos: “O que você faz?”, confundindo o SER com o FAZER.

Você já notou que quando alguém nos pergunta o que fazemos, em geral, respondemos sobre o trabalho. Não é comum falarmos sobre o que gostamos de fazer, como é a nossa história de vida, a história da nossa família, quais as nossas características e preferências.

Um outro conceito muito esclarecedor sobre o trabalho, foi apresentado por uma das especialistas e estudiosas que participava da discussão. Ela dizia que historicamente o trabalho está associado, não só ao ganho financeiro (sustento), mas principalmente, a ter um lugar na sociedade (pertencer a algo, ter uma ocupação). Além disso, e talvez mais forte do que tudo isso, é que o trabalho tem um caráter moral (a pessoa com emprego é vista de forma positiva, a desempregada é excluída socialmente).
Um outro exemplo disso, são as pessoas que não precisam trabalhar, mas ainda assim, escolhem fazê-lo para se manter ocupados (Exemplo: um morador de uma comunidade carente, possuía casas alugadas que eram suficientes para seu sustento, mas escolhia trabalhar para manter a cabeça ocupada. Acreditava que isso poderia trazer a ele mais saúde e mais anos de vida)

Enfim, esse conceito me fez perceber e me reconectar com meu valor essencial….eu gosto de trabalhar, gosto de me sentir útil, gosto de criar, gosto de sentir que posso ajudar outras pessoas, gosto de saber que meu tempo nessa vida está sendo produtivo. Como SER humano tenho uma responsabilidade de devolver algo para a sociedade, pela minha vida, pela minha existência e pela minha saúde.

Eu voltei a fazer coisas que sempre me interessaram e que estavam adormecidas….cozinhar, pintar, escrever, fotografar, praticar yoga, ler e estudar muito mais intensamente. Fiz curso de Reiki, iniciei um trabalho voluntário, apoio um projeto de mentoria para jovens em início de carreira e decidi voltar a atuar como coach, facilitando o desenvolvimento de outras pessoas e ajudando a descobrirem seu propósito de vida.

Dei um novo significado à toda a minha rotina e me sinto produtiva em tudo o que faço…sou produtiva cozinhando (produzo amor), sou produtiva deixando a minha casa e as roupas da família cheirosas (produzo bem-estar), sou produtiva ajudando as pessoas a encontrarem seu propósito de vida (produzo um serviço que cria seres mais livres).

3. Quem é você?

E por fim, a última provocação…que tal, se transformássemos a pergunta: “O que você faz?” em “Quem é você?”.
Ainda assim, corremos o risco de uma pessoa responder à essa pergunta dizendo apenas de seu trabalho e de seus feitos…
Mas vale a pena a reflexão, como você se apresentaria se te perguntassem: Quem é você?

Eu sou Carla, sou sangue quente, fruto de uma miscigenação de culturas, valorizo o amor e a família, gosto de ter vínculos fortes com as pessoas, valorizo as minhas amizades, gosto de cuidar das pessoas, gosto de escrever, (colocar meus pensamentos no papel), tenho uma visão holística do mundo, acredito no autoconhecimento como fonte de felicidade e evolução humana, sou praticante de reiki, gosto de receber as pessoas em casa, valorizo a arte de cozinhar, gosto de ajudar as pessoas a se sentirem melhor, vivo as emoções intensamente e atualmente me dedico a ajudar as pessoas a encontrarem seu propósito e serem mais livre para assumir quem são verdadeiramente, em busca de um mundo com mais alegria.

Carla Merlina Gennari, 25 de setembro de 2018.

Para finalizar, aqui vai um agradecimento especial para a querida amiga Adriana Monti que foi quem me apresentou o Mamilos

O Mamilos – Jornalismo de peito aberto, é um podcast semanal, conduzido por Juliana Wallauer e Cris Bartis, que busca nas redes sociais os temas mais debatidos (polêmicos) e traz para mesa um aprofundamento do assunto com empatia, respeito, bom humor e tolerância. Elas apresentam diversos argumentos e visões sobre cada tema para que os ouvintes formem opinião com mais embasamento. O programa vai ao ar todas as sextas final do dia. Vale muito a pena conhecer, participar e contribuir: www.mamilos.b9.com.br

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