Quando o mar tocou o sol

Às vesperas da minha viagem, recebi de uma amiga escritora, a seguinte mensagem: “Concurso: ‘Viagem a Itália’. É muita coincidência. Divirta-se!”
De malas prontas para a Italia, me diverti muito com certeza. Era tudo que eu queria: Uma viagem de estudos, devidamente costurada pra que fosse também de passeio. Até mesmo de enfrentamento, pois eu, na proximidade dos cinquenta anos, me descobri com tantos medos. Medo do tudo diferente e do faça sozinha. Como já havia assumido o compromisso de mudar de nome caso não viajasse, julguei ser mais facil e coerente, seguir em frente. Enfrentei os binários, os parquímetros, os tabacchieri, os ‘qualquer coisa’ e me deixei crescer.

Trocando de cidades, seguindo o rumo das origens veronesas, dos meus cursos de ilustração em cidades pequenas, dos alojamentos compartilhados, dos sorvetes artesanais e seus tantos sabores recomendados: pistacchio, frutti di bosco, nutella, nocciola, baci… opera! Ponteando com escapadas por cidades próximas, também pequenas, ora muradas e medievais, ora banhadas pelo mar Adriático. Seguindo os sons de música ao vivo em cada praça de Firenze que transpirava verão e alegria. Passando por Assisi que, mesmo lotada de turistas durante os dias de agosto, à noite, nos permitia a tão cantada e iluminada paz. Sim, foi cantada e iluminada, sob acolhedores brisa e luar, quando os passos já não sabiam por onde seguiam, que me deparei com a Basílica de São Francisco. Experimentei então, a Paz.

A um certo momento da viagem, me lembrei do tal concurso. Pensei, enquanto percorria as ladeiras de Macerata: de tudo nasceriam crônicas. Era como se brotassem das pedras da cidade murada. Ali, onde plantas não germinavam, no meu dia a dia, as crônicas eram de abundante fertilidade.

Poderia falar da convivência, num mesmo apartamento, com pessoas de diversas procedências, idades e costumes. Dos passeios pelos arredores, que originaram meu primeiro mergulho no Mar Adriático, ou o encontro com um enorme porco espinho selvagem após nos perdermos à noite pelas estradas de Marche, mesmo com o auxílio do GPS. E ainda citar o tanto de azeite que usei na Pizza Capricciosa em Sarmede, município que praticamente não está no mapa, para depois descobrir que o azeite servido à mesa é apimentado. A mala pesada que me acompanhou e as trocas de trens e estações dariam provavelmente uma boa crônica. No futuro, porque no momento me davam só dores. ‘Que não sejam crônicas!’, desejava meu pensamento, logo interrompido pela lembrança do elevador que pegamos na cidade murada para enfim vermos… árvores! Crônicas pulsando, apenas esperando um momento solitário com um lápis e papel na mão.

Mas foi ao chegar em Civitanova à noite, após o curso, que a brisa salgada do Adriático me ofertou um autêntico protagonista. Estava ainda claro e quente. O sol de verão na Italia se recusa a ir embora tão cedo. Antes das 21 hs? Nem pensar! Já os banhistas, em ritmo de férias, haviam partido e deixado fileiras e fileiras de guarda sois e cadeiras a se perder num infinito. Um infinito não de areia, mas de pedrinhas e pedrinhas achatadas de todas as cores. E todas as dores para quem estiver descalço.

Pedi à minha amiga espanhola que batesse minha foto. Mar ao fundo. “Que belo sorriso!”, ele disse. Em italiano, é claro, falou o senhor que recolhia e empilhava as cadeiras, uma por uma. De andar lento e curvo, de chinelo, arrastando os pés…

Pedi gentilmente que batesse nossa foto. Surpreso: “Nunca usei uma máquina desta antes. Como se faz?” Disse ao segurar a máquina digital. Posicionei e expliquei aonde deveria apertar. Voltei pra beira do mar. Nos preparamos, eu e Maribel, o abraço e os sorrisos. Ao olhar o italiano: roda pra lá, roda pra cá, a máquina. Pergunta: “Assim?” e roda de novo…. Até que, ao ver seu olho enorme no visor, percebi a inversão e me adiantei para corrigir. Ele apontava para si próprio a câmera! Novamente: prepara, abraça, sorri e… “Ele está apontando para nossos pés!” Esclamava Maribel. “Sobe!” “Mais!” “Mais!”, gesticulávamos. Checávamos então a foto: cabeças cortadas. Numa última tentativa, ainda abraçadas, trocando o sorriso pelo riso e desistindo de tentar corrigi-lo, abaixamos, ficamos curvas, bem curvas, já brincando, pra caber dentro da foto.

O senhor sorridente, depois do gentil serviço prestado, quis novamente conferir se a foto havia ficado boa. Justíssimo. Sempre. Ao nos ver, curvas, dentro da foto, exclamou feliz: “Que bela inquadratura EU FIZ!”. Rimos. Todos. E se foi, a recolher cadeiras, andar lento, compenetrado, curvo e satisfeito. Nós, rimos de chorar. Era incontrolável e natural como as marolas do mar ou o vento. Choramos com a mesma sinceridade e espontâneidade que ele nos presenteou.

O sol se pôs mais alegre. Como ele, o senhor ia-se pondo vagarosamente. Foi a pessoa mais simples que encontramos. Uma das mais gentis. Nos proporcionou um dos mais divertidos e inesquecíveis momentos e uma das mais belas e espontâneas fotos de viagem. Trêmula, é verdade. Mas como o sol ao se espelhar no mar.

Sandra Ronca é escritora e ilustradora de Literatura Infantil.