Por que chamamos o amor “errado” de amor demasiado?

Há pouco mais de 2 anos, atendi em meu consultório uma paciente que chegou com a queixa de “eu amo demais”. Ela se sentia esgotada, enraivecida e frustrada porque ao longo da vida se sentia amando demais a todos, e que não era compreendida. Culpava o ex-marido e os inúmeros namorados por não serem dignos de tanto amor. Acreditava que um dia, encontraria um homem tão ‘romântico’ quanto si mesma, que saberia valorizar seu amor ‘demasiado’ e que, finalmente, seria amada como desejava.
Robin Norwood é uma famosa terapeuta americana, que com base em relatos de suas pacientes e em sua própria experiência, percebeu que existe um grave transtorno afetivo obsessivo entre mulheres, a qual nomeou de síndrome do amar demais. Em seu famoso livro “Mulheres que Amam Demais”, ela cita: ‘quando amar significa sofrer, estamos amando demais (…) quando o relacionamento coloca em risco nosso bem-estar emocional, e talvez até nossa saúde e segurança física, estamos definitivamente amando demais’.
Será que realmente, um transtorno afetivo obsessivo é desencadeado por amar demais? Concluir que algumas mulheres “amam demais” não é um jeito de romantizar uma dificuldade de alguém que talvez “ame errado” ou talvez não ame, nem a si mesma?!
O que faz com que algumas pessoas (em sua maioria, mulheres) desenvolvam esse transtorno afetivo obsessivo, que clinicamente recebe o nome de Transtorno de Personalidade Borderline (TBP), são reflexos de uma criação em um lar desajustado, com pais desatenciosos, que não supriram suas necessidades emocionais, transformando a criança em um adulto que tem medo contínuo de abandono e habituado a falta de amor. Isso resulta em um ser que, continuamente, deseja amor, que ama errado, de uma forma que não é saudável, que só traz dor, sofrimento e vício. Uma pessoa que não foi amparada e acolhida, que não criou significados positivos de amor próprio e amor ao próximo. Criou-se uma necessidade irracional de ser cuidada, de apego, de carência.
De acordo com a Psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, o tipo de personalidade borderline são pessoas que canalizam toda atenção para a vida afetiva e que tem uma necessidade incontrolável de amar e ser amado o tempo todo. Essas pessoas tem medo que as emoções fujam do seu controle, com tendência a se tornarem irracionais em situações de estresse e pressão, criando uma grande dependência dos outros para estarem estáveis.
Além disso, são pessoas que sofrem com alterações de humor ao longo do dia, irritabilidade, raiva, desespero, ansiedade, medo de ser abandonada por amigos, familiares e conhecidos, instabilidade em suas relações, impulsividade e dependência (jogos, dinheiro, comida, sexo, drogas), baixa autoestima, insegurança e constante sensação de solidão e de vazio interior.
Portanto, quanto mais percebermos e tornarmos consciente que não, não estamos amando ‘demais’, e que estamos mascarando como amor outros comportamentos prejudiciais, mais fácil e próximo vai ficando o caminho de melhor convivência com o transtorno.
Quanto mais temos coragem para lembrar e contar sobre nossas histórias de vida, e nossas memórias na psicoterapia, mais passamos a atender nossas faltas iniciais, e o quanto isso resulta em excessos negativos em nossos comportamentos e pensamentos atuais.
Aceitar que posso ser portador de um determinado transtorno, me torna consciente e responsável por minhas atitudes, e por uma mudança. Acreditar que amo ‘demais’ não só romantiza e suaviza um problema sério, mas também traz ao outro uma ‘obrigação’ de aceitar esse amor, como se fosse algo totalmente positivo. Agora, perceber que a forma de se relacionar não é sadia e procurar desenvolver amor próprio, traz para a própria pessoa possibilidades de vínculos, escolhas e relacionamentos maduros, leves e felizes.

Camila M. Caldo
Psicóloga e Psicoterapeuta
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