O lado perverso da relação entre mulheres

Muitos artigos, teses e livros já trataram da complexidade da convivência entre mulheres. Mas, pela primeira vez, uma obra mostra o que elas pensam sobre a relação com as amigas, colegas e conhecidas do sexo feminino, e os efeitos devastadores que comportamentos negativos são capazes de produzir. O que se vê está longe de ser um mundo cor-de-rosa, onde todas se respeitam, se apoiam e se unem na guerra dos sexos. A partir de um questionário de 50 perguntas, respondido por mais de três mil entrevistadas, “Twisted Sisterwood” revela que 90% delas percebem “correntes de maldade e negatividade emanando de outras mulheres” de maneira frequente.
Além disso, 85% afirmaram ter sido vítimas de grandes golpes, que mudaram suas vidas, de outras colegas. E mais: 75% disseram ter sofrido com o comportamento de amigas íntimas ciumentas e competitivas. Casada e mãe de quatro filhos (três meninas), Kelly esclarece que acredita na amizade sincera entre pessoas do mesmo sexo e no poder desse tipo de relação. Mas que igualmente crê que moças podem ser cruéis umas com as outras, em determinadas situações, como quando sentem ciúme ou são ameaçadas. E que, em muitos casos, essa crueldade deixa marcas emocionais de lenta cicatrização.
Por causa do livro, que não tem previsão de lançamento no Brasil, Kelly vem sendo chamada de heroína. A apresentadora americana Oprah Winfrey agradeceu a autora pela coragem de “colocar o dedo na ferida de algo que tem sido escondido debaixo do tapete”. “É leitura obrigatória”, sentenciou Oprah. Outros famosos também se posicionaram sobre o assunto. A atriz Sienna Miller disse à revista “In Style” que estava vivendo “uma guerra”. “Descobri o que é ser julgada por mulheres. Não há irmandade”, afirmou.

Mas nem sempre Kelly foi alvo de elogios. Em 2007, três anos antes de lançar o livro, ela escreveu um artigo, pessoal e visceral, sobre a relação entre mulheres, para o jornal americano “The New York Times”. Nele, contou que, numa festa da faculdade, acabou bebendo demais, foi abusada sexualmente por um colega e traída pelas amigas. Além de não lhe prestarem socorro, elas repreenderam Kelly e a expulsaram do alojamento. Também passaram a falar mal dela pelas costas, criando uma rede de intrigas que se estendeu por todo o curso.
“Falar mal e fazer fofoca são comportamentos comuns entre mulheres, que desde meninas agem de tal forma, na escola, contra as colegas”, comenta o psiquiatra Antônio Flávio Testa, professor da Universidade de Brasília (UnB). “Isso acontece porque, diferentemente dos homens, que geralmente partem para a porrada, elas internalizam, remoem, permanecem magoadas.” Muitos dos que leram o relato de Kelly no periódico acusaram-na de destilar heresias e de ser desleal com o seu gênero. “O que vivi na faculdade mudou a minha vida. Por cerca de dez anos tive dificuldade de confiar nas pessoas, especialmente nas mulheres, e me fechei”, disse a autora à IstoÉ. “Apesar de o garoto ter cometido o crime, doeu o comportamento das minhas amigas, principalmente porque eu confiava muito e esperava demais delas. Foi uma facada.”
Através de relatos, o livro mostra que as facadas são proporcionais à intimidade. Quanto mais próxima a mulher é daquela que lhe faz mal, mais ferida ela sai de uma relação que dá errado. “Acontece que muitas mulheres, disfarçadas de amigas, se aproveitam da intimidade que têm com a outra em benefício próprio”, diz Testa. “É o lado mais dissimulado da relação e o mais cruel, pois quem se abre confia e não espera ser traído.”

Matéria na íntegra em:
https://istoe.com.br/119862_O+LADO+PERVERSO+DA+RELACAO+ENTRE+MULHERES/

Siga a Rede Hestia:
error