O que é sucesso para você? – por Andréa Fortes

Dia 25 de janeiro foi feriado em São Paulo. Cidade vazia. Ainda não me acostumei que as coisas param deste jeito por aqui. Fui no seminário da Sophie Hellinger sobre sucesso no trabalho e na vida. A Sophie, pra quem não sabe, é esposa do Bert Hellinger, que criou as Constelações Sistêmicas. Ela tem ampliado muito os estudos deles e está à frente de algumas formações no Brasil. Aliás, ela e o Bert, alemães, têm vindo cada vez mais para as bandas de cá. Pensei que iriam poucas pessoas. Me enganei. Por baixo, umas 400, que formaram filas para o credenciamento logo cedo num hotel no bairro japonês da Liberdade. Foi a terceira vez que estive com a Sophie. A primeira foi há dois anos, num encontro sobre o feminino que reverbera em mim até hoje. Os encontros com a Sophie saem um pouco do que estou acostumada. Eles não usam energia para o “art of hosting” que temos no Brasil, de receber, dar colo, café e estrutura. É tudo simples e assertivo. Na medida. Mas entregam energia e presença de sobra. Não há um roteiro estruturado mas Sophie, no palco, recebe pessoas que, ao subirem, entregam suas vidas e questões ao campo que se forma. Há, claro, anos de estudos, preparos, vivências. Mas, há, ao mesmo tempo, a certeza de que cada encontro é único e que não se sabe o que virá até que venha. Eles pedem para não anotar durante o seminário, o que pra mim é um grande sacrifício. Eu praticamente não existo sem um caderno na mão para colocar as ideias. Mas a proposta é justamente esta: fazer diferente. E há um motivo para tudo isto: com as mãos livres, estamos mais entregues ao “campo” e disponíveis para “experenciar”. Nos intervalos, claro, psicografo insights, que sempre vêm aos montes. Até prefiro ficar sozinha, quieta, para dar conta do que borbulha assim tão fresco. No começo da manhã, veio uma primeira pergunta: “o que é sucesso pra você?”
Dois dias depois, sábado, a Lu, uma grande amiga de Porto Alegre me escreveu durante uma formação de arquétipos. Passou o dia imersa nas jornadas de heróis e heroínas. Me fez então uma pergunta por whats up: “amiga, quem é uma pessoa que tu realmente admira? Alguém que é uma referência, uma pessoa maravilhosa, admirável, que te inspira? O exercício de “persona” que ela faria em seguida pedia, num primeiro momento, por uma “celebridade” brasileira, uma mulher forte e atuante que tenha grande reconhecimento pelo que faz. Uma pessoa de sucesso, enfim. Tive muita dificuldade para responder porque me dei conta que não compactuo muito com “celebridades”. Não tenho nada contra ou a favor, mas costumo admirar pessoas que estão além da mídia. Pra mim, admiráveis são aquelas pessoas que, na sua vida cotidiana, têm coerência entre sentir e fazer, valores claros, brilho no olho e alegria de viver. Estão vivas no melhor sentido da palavra. Depois de ter citado a Gisele Bundchen e a Fernanda Montenegro que, sim, admiro, cheguei em duas mulheres que, nas suas vulnerabilidades e provações, mostraram-se forte e extremamente positivas. Uma delas é a Regina Steurer, arquiteta, educadora e a grande anfitriã de uma escola de nome Ancora e que serve de esteio para muito além dos alunos. Ela é uma desbravadora, guerreira, bonita, forte. Foi uma das primeiras mulheres a assumir o cabelo grisalho no Brasil e o fez porque sentia-se mais bonita assim. Regina ficou viúva do amor da sua vida com filhos adolescentes e precisou de reinventar. Recriou a si e à Ancora e tornou-se ainda melhor, sem lamentações. Lembrei também da Renata Quintela, do Instituto “A nossa jornada”, mulher forte, mãe de 3 por natureza e de centenas pelo coração. Ela tem uma ONG que mexe de verdade na vida das pessoas. Entre outros tantos projetos, recebe refugiados quando chegam no Brasil. Renata não tem cabelo branco. Mas usa de vez em quando fios cor de rosa para combinar com as tatuagens fortes que exibe no braço. Ela sorri forte quando chega. Ambas mulheres reais, com vidas reais e desafios de verdade.
A minha amiga, a Lu, acabou não usando nenhuma das minhas dicas no exercício. Escolheu a Andréa Fortes, ou seja, eu! E falou coisas bonitas de mim. Fiquei meio chocada, envergonhada, mas, tempos depois, agradecida. Eu acho realmente este conceito de sucesso bem relativo.
No finzinho do ano passado eu assisti um filme* no cinema bem bacana de um cara que achava a grama do vizinho sempre mais verdinha. O filme me tocou tanto que não consigo lembrar o nome (juro que vou descobrir). No fim, a grama dele é que era verde e ele não conseguia ver, tão preocupado que estava com os outros.
Pra mim, sucesso é uma coisa tão simples que é que nem Deus: a gente procura, procura e, quando vê, estava dentro da gente. Isto foi um monge que falou pra mim na India, uns anos atrás. Nunca esqueci. Falava sobre a procura de Deus.
Olhando a Renata, a Regina e alguns bons nomes de homens e mulheres, vivos ou mortos, que admiro, sinto que eles não estavam preocupados em agradar quando fizeram o que fizeram. Seguiram suas almas, foram desbravadores, incomodaram alguns, mas sempre tiverem olhos brilhando e coração pulsando. Não são ou não foram mortos-vivos, zumbis. São ou foram pessoas que atraem. Emanam luz e, por isto, atraem coisas boas. Não é coincidência. É merecimento, esforço. É tropeçar e levantar, seguir. É usufruir do que se tem, aprender com o que vier e não remoer passado. É não olhar o que falta e valorizar o abundante. É ter raiz forte para que os galhos possam alcançar lugares altos. E de raiz me refiro aos antepassados (e honrar os que vieram antes, falando nas Constelações), ao próprio passado, às histórias vividas e os aprendizados práticos e cheios de momentos atrapalhados e estropiados. Eu tenho cicatrizes. Muitas na alma, algumas na face. Tenho uma menina amedrontada dentro de mim que vez ou outra vem me visitar. Tenho defeitos, dúvidas e suposições. Mas sempre tive coragem para agir, para chorar ou recomeçar. Tenho uma filha linda, trabalho com o que amo. Tenho amigos que são anjos e âncoras. Tenho histórias com “h” e sigo aprendendo. Sim, sinto que tenho sucesso na vida e uma estrada pela frente para seguir me realizando como ser humano que sou. Um dia por vez mas sempre presente porque a vida é agora. Resgatando a Sophie, uma mulher que, para mim, tem sucesso na vida, ela deixou bem claro que quem tem sucesso não coloca o dinheiro na frente. Resumindo, se não nutrir o coração primeiro, não tem bolso cheio que preencha a alma. Pra mim, faz todo sentido. Não que nutrir o bolso seja pecado para alguém. Mas, coincidência ou não, os grandes caras e as grandes mulheres que lembrei sempre foram ricos, num sentido muito amplo da palavra. Sucesso? É ser rico de virtudes e possibilidades!

Filme* O Estado das Coisas (2016)

A Regina Steurer, da Escola Ancora:
http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/09/escola-que-ensina-sonhar.html

A Renata Quintela, do Instituto A Nossa Jornada:

*Andréa Fortes é filha da Irma e mãe da Carolina. Publicitária de formação, empresária, escritora e costureira de relações.

Andréa Fortes é uma Héstia!