Na fonte

Quando eu era pequena, me chamavam de Pollyanna. Chamavam também de Super Vick, Dicionário Ambulante e outras tantas coisas, mas este é outro capítulo, que somente os que têm mais de 40 entenderão. O fato é que eu sempre sorri muito. Eu era otimista, determinada, via a metade cheia do copo, ainda que muitas vezes ele se apresentasse meio opaco pra mim. Eu sempre subi em árvores, tinha as pernas lanhadas, arranhadas, roxas, tinha bicicleta Caloi Cross e uma liberdade que vinha da alma. Eu morei até os cinco anos numa fazenda. E lá, eu bebia da fonte. Literalmente. Onde morávamos, havia uma caverna meio secreta no meio do mato de onde brotava uma água incrivelmente limpa e gelada. Uma fonte. A água abastecia nossa casa. Vertia, fluía, brotava de pedras. Nunca cessou.

Deste mesmo mato, vinham minhas fantasias, descobertas, túneis secretos de copas de árvores, montanhas e vento no rosto. Eu cresci e esta menina selvagem de dentro de mim segue aqui, sedenta, curiosa. Os livros foram – e sempre serão, passagens para que eu pudesse continuar nutrindo estes mundos de possibilidades. E assim, meio Pollyana, meio destemida, fui desbravando. Da fazenda para a cidade. Da cidade pequena para a cidade grande. Do RS para SP e o mundo. Um mundo que sempre esteve em mim.

Eu nunca coube, nunca pertenci totalmente, nunca fui padrão. Porque sou de todo lugar, um pedaço do todo. Eu intuí isto cedo mas não sabia lidar direito. Até que em minhas leituras e viagens por aí, descobri outros seres inquietos que passaram a me fazer companhia. Falo, por exemplo, do Rudolf Steiner, o pai da Antroposofia, da Hilma af Klint, uma artista que no começo do século passado “psicografou” quadros tão profundos que optou por “deixá-los descansar” por quase um século até que fossem revelados, após sua morte. Falo do Satish Kumar, indiano com alma de menino que, há algumas décadas, caminhou, a pé, pelas principais capitais nucleares do mundo levando um chá da paz para líderes mundiais em nome do desarmamento nuclear.

Há um gosto de se ser pioneiro, primeiro, fora da caixa e há, também, um preço de sê-lo. Sou, claro, uma gota deste jarro que representa algumas das pessoas citadas, mas sei que gosto mesmo do frio na barriga da onda que ainda está por vir. Estar em São Paulo tem de suas loucuras, mas tem, também, muita coisa bacana. Aqui, em meio ao caos, trânsito (que sinto pouco – vendi meu carro há quatro anos e coloquei minha empresa na frente de casa), eu consigo reencontrar parte da fonte. Falta tempo e energia para beber desta água toda, que verte abundante. São Paulo tem exposições, arte, poesia, tem gente pioneira, sabedoria. Nas últimas três semanas, em escolhas cuidadosas e difíceis, escolhi estar com três pessoas destas que, para mim, têm gosto de fonte.

Todas chegaram de jeitos inesperados e, entregue às sincronicidades, fui a elas. O primeiro tem nome bonito, Dominic Barter, e é um inglês que mora no Rio de Janeiro há alguns anos. Fala sobre Comunicação Não Violenta. Um anjo de Porto Alegre o havia citado na semana anterior. Me disse: – tens que conhecê-lo. Dias depois, do nada, recebi uma mensagem de que haveria um evento dele em São Paulo. Fui, claro.

O segundo, veio da Espanha. Sotaque gostoso e um esforço enorme em falar português. Simpatia pura, humor ácido, na medida que eu gosto, e provocações fundas e necessárias sobre o dinheiro que, acredite, deve fluir. Chama-se Joan Melé e foi a segunda vez que tive a oportunidade de estar com ele.

O terceiro faz parte da minha vida há um setênio. Chama-se Robert Happé, um holandês de fala mansa e conteúdo fundo que nos provoca a ascendermos como seres humanos que somos. A ida ao encontro dos três teve de suas provações. Nos três casos, decidi de última hora que realmente iria. Exausta, a fonte estava na reserva e o trânsito, nos três casos, era uma provocação. Mesmo assim, fui. E reencontrei parte de mim na fala de cada um deles. Eles são gotas. E são bálsamo.

O Dominic Barter fez um encontro num lugar chamado Casa do Povo. Centrão, trata-se de uma casa de resistência judia há décadas. Um lugar cheio de histórias e possibilidades que eu não conhecia. Num grande galpão, havia uma mandala de cadeiras, um canto para crianças (os adultos são incentivados a levarem seus filhos e todos, a cuidarem das “nossas crianças”, num exercício de tolerância). Não sei ao certo quantos éramos, mas sei que não havia microfones nem grandes tecnologias. Havia fala firme, sem nenhum resquício de grito, e escuta atenta. Havia vontade de se estar, liberdade para ir e vir e maturidade para “investir”.

Em dois cestos, Dominic apresenta, logo de saída, as possibilidades. Num deles, os presentes são convidados a colocarem dinheiro vivo, solto. Qualquer pessoa que precise (para pagar o lanche, o metrô), pode fazer uso deste recurso, sem dar satisfação aos demais. No segundo, pequenos envelopes são recipientes para que cada um coloque a verba que imagina ser adequada para “bancar” o encontro. Inclui o espaço, o horário das pessoas e a vontade de remunerar, de forma justa e honesta, os envolvidos. Segundo Dominic, mais que as conversas em si, o grande exercício de “Comunicação não violenta” acontece imediatamente depois do final do evento, quando ele e a equipe anfitriã abrem os envelopes e, juntos, sem hierarquia ou pré-combinação, decidem quem deve receber o que do dinheiro arrecadado.

O Joan Melé chegou à minha vida em abril. Uma mãe do colégio da Carolina disse que eu precisava ir. Outros amigos, também o citaram. Claro, fui. Num encontro numa escola Waldorf (antroposófica) e noutro, em um clube cheio de executivos. Desta vez, o primeiro, aberto, foi no Unibes, quase o pátio da minha casa e, coincidência ou não, uma “casa judia”. O segundo, bem longe. Uma hora de trânsito para chegar na Sociedade Antroposófica, lado de lá da cidade. Fui. No primeiro, lousa negra no palco e flores do campo. No segundo, goles de euritimia para soltar as crianças internas antes da conversa funda nos tomar. Chegou, animado, e falou de verdade, beleza e bondade, em contraponto à mentira, ódio e medo. Relembrou que os animais não param para contemplar e que flores, música e poesia nos nutrem de outros jeitos. Falou no resgate de uma arte social, onde devemos re-aprender a nos relacionarmos com os outros. Um banqueiro, “cara duro”, de finanças, provocando cada um dos presentes a fazer o que precisa ser feito: saciar uma fome espiritual, dar um sentido pra vida. Até que chegou ao assunto: o dinheiro. Um dinheiro como fonte que não cessa e que, para que siga, precisa fluir.

A ida no Robert Happé, desta vez, aconteceu porque tudo “deu errado”. Eu iria a Curitiba lançar um livro com um grupo de coautores. Passaria os seis anos da Carolina lá, já que havia uma grande causa envolvida. Não virou como esperado e virou outras possibilidades. Decidi, de última hora, ir para o mato com ela, reencontrar o querido Robert e minha família “ancestral”. Não fiz festa pra ela em casa (faço todo ano, com as próprias mãos) e festejamos, juntas, escabeladas, a vida e a menina linda que ela vem se tornando. Busquei Carolina na escola no horário do almoço e partimos. Carro da madrinha dela (nunca precisei alugar um desde que vendi o meu), bonecas de pano e galochas em punho, fomos. Voltamos domingo cedo, contrafluxo, com calma na alma. Robert pegou pesado daquele jeito leve, falou em expressão criativa, sabedoria e do livre arbítrio. Lembrou que o “jogo” não é físico nem intelectual, mas espiritual, e que a luz do amor precisa penetrar na escuridão.

As escolas, as universidades e as instituições não vão nos ensinar nada disto. As experiências, sim. Estamos todos indo para uma outra frequência e, “seja o que for que você estiver passando, vai passar”. Relembrou que qualquer coisa que não é amorosa ou amistosa, precisa ser mudada e que precisarmos confiar de novo. Falou de necessidades e de desafios e, mais do que falar, conduziu-nos à experiência mais tocante e inesperada do feriado: no sábado à tarde, ligou o trator e colocou todas as crianças no reboque para passearem. Os adultos também foram, despidos de vergonha e preconceitos. Voltei cheia de conteúdo, descansada, com as pernas lanhadas, arranhadas, picadas de mosquito, nutrida e ainda mais desconfiada de que grandes caras têm seus meninos internos bem nutridos. São generosos e simples.

Hoje cedo, sábado, eu me permiti ficar em casa com a Carolina. Precisávamos “fazer nada” depois de semanas intensas. Ela me pediu para ver um filme no ipad. Eu não deixo ela ver filmes durante a semana. Na verdade, quase nunca. Sequer temos televisão em casa. Como o banco que o Joan Melé, antroposófico, a escola dela também bebe na fonte do Rudolf Steiner e desaconselha que “over estimulemos” as crianças com aparatos eletrônicos. Pior, ela pediu para ver “Cinderela”. Preconceito a mil, “coisa de princesa que busca o príncipe”, respirei fundo e resolvi fazer sua vontade, “apenas hoje”.

Abrimos o sofá da sala, montamos um super cafofo com cobertores e bonecos e, enquanto ela começava a assistir, aproveitei o “tempo livre” para ajeitar a casa. Foi quando vi o quanto ela estava curtindo a história. Já tinha visto o filme mais de uma vez na casa do pai. Deitei com ela no sofá a acabei vendo o filme até o fim. Não fala de sapato de cristal ou de um príncipe ideal (ao menos não apenas sobre isto). Mas sobre ter coragem, ser gentil e acreditar numa certa magia, conselhos que a mãe lhe deu antes de morrer (incrível como tem órfão nestas histórias infantis! Uma desgraça só!).

O Steiner (já falecido), o Dominic Barter, O Joan Melé, o Satish Kumar e o Robert Happé não são do Brasil. Mas nutrem a nossa pátria. Exercem a pluralidade e a diversidade no discurso e na prática (os últimos vêm direto pra cá e o Dominic, inclusive, mora aqui há anos). Falam do mesmo, em suas diferentes possibilidades: de generosidade, comunicação não violenta, de abundância, sobre deixar-se assombrar diante da vida e suas possibilidades. Tenho quase certeza de que não assistiram Cinderela. Mas são pequenos grandes mestres na arte de beber na fonte: imagino que tomam (tomaram), todo dia, boas doses da fonte da Gata Borralheira: são mestres em coragem (para serem pioneiros), bondade (para não reagirem à violência) e magia, porque ninguém é de ferro e há mundos invisíveis indizíveis para serem vividos.

Pra quem quiser mais, aqui, outros goles de fonte:

 

Andréa Fortes é filha da Irma e mãe da Carolina. Publicitária de formação, empresária, escritora e costureira de relações.