Estelita Thiele: mudança para outro país requer atenção, respeito e encantamento pelo novo

Estelita Thiele nasceu, como ela mesma conta, na “São Paulo de antigamente”, no tempo em que na periferia se brincava na rua e se fazia amizade com vizinhos levando um pedaço do bolo que acabara de ser assado. Ela cresceu em uma casa na qual os meninos brincavam na rua, soltavam pipas e jogavam figurinhas, enquanto as meninas ajudavam nas tarefas domésticas; mas sempre escutou dos pais sobre a importância de estudar e ser independente, não fazendo por menos ao longo da vida. Estel trabalhou para pagar a faculdade, foi aluna da PUC, da FAAP, da Fundação Dom Cabral, da UNESP e do MIT.

Profissionalmente, comecou a trabalhar cedo e, ao longo dos seus 30 anos de experiência, atuou em três grandes empresas: KPMG, Bank Boston e Natura, a maior parte do tempo na área de Recursos Humanos, mas também  em Ouvidoria e Engajamento de Stakeholders. “Tive oportunidades e desafios incríveis junto a essas organizações: comecei a aprender sobre educação executiva e executive search quando ainda estava cursando a universidade; fiz parte de uma equipe organizada sob o conceito de Business Partner nos idos de 1995; e atuei por 14 anos em uma das organizações mais admiradas do mundo por seus processos inovadores e sua conduta impecável no que diz respeito à ética, transparência e diálogo. Aprendi muito sobre estratégia, relações, processos, tecnologia e poder de influência. Passei perrengues e aprendi a nadar porque fui jogada na piscina, como muita gente no mundo corporativo. Sou grata à vida por isso, aprendi flexibilidade, humildade e companheirismo. Talvez o acaso também tenha feito a sua parte e tenha me botado no lugar certo, na hora certa.”, conta.

Atualmente, Stel vive nos Estados Unidos e  atua há quatro anos como consultora independente, em projetos de desenvolvimento organizacional e estruturação de canais de diálogo com stakeholders para empresas de diversos setores e portes. No depoimento a seguir ela conta um pouco sobre sua trajetória, mudança de país e planos futuros, e certamente inspirará muitas héstias.

Me lembro perfeitamente, morando em Buenos Aires, de ter notado como a nossa forma de tentar “ser gentil” (não querendo dizer um não redondo a ninguém) soava como “agenda oculta” para algumas pessoas no ambiente de trabalho. É vero, pode soar assim… Tomei a decisão puramente por inclinações pessoais embora, certamente, eu aproveitarei as boas oportunidades de estudo e trabalho que tiver por aqui.

“Me mudei para os Estados Unidos em janeiro deste ano, quando saiu meu green card, mas tenho projetos no Brasil e uma conexão muito forte com meu país, minha cultura, minha família, meus amigos… tenho tentado, dentro do possível, estar na “ponte-aérea” Seattle-São Paulo e quero muito continuar assim. Tomar a decisão de me mudar para outro país até que foi fácil, já fiz duas vezes (risos), o mais delicado é a implementação, o processo de adaptação ao novo, à rotina, descobrir as coisas mais triviais que em seu país de origem faz de olhos fechados.  Ao mesmo tempo, enriquece tanto suas perspectivas, amplia tanto a mirada, que eu acho que é um divisor de águas na vida de uma pessoa. Faz com que se dê conta das diferenças tanto quanto ajuda a realizar um pouco mais como somos como brasileiros.


Estou junto com meu marido há 7 anos, vivendo ao longo desse tempo todo uma relação à distância. Meus compromissos profissionais e o fato das minhas filhas estarem estudando no Brasil (depois de já terem tido que trocar de escola para ir para a Argentina) me fizeram esperar até que o momento certo surgisse. Isso aconteceu no ano passado, quando, depois da minha filha mais velha ter ido estudar em Berlim, as duas mais novas optaram por vir estudar aqui nos Estados Unidos. Então fizemos as malas e cá estamos.

Acho que a adaptação a uma nova cultura depende muito das circunstâncias na qual você está imersa no novo local, para onde se mudou e com que tipo de “rede de apoio” pode contar. São coisas pequenas que trazem nostalgia, como o café da tarde de domingo na cozinha da casa da mãe, a amiga que liga sem marcar e passa na sua casa dali a pouco para levarem os cachorros para passear, o pão na chapa na padaria, a manicure na esquina… Podem ser oportunidades para resmungar ou para encontrar as medialunas com dulce de leche mais deliciosas do universo e se surpreender com um blueberry lemon scone dos deuses.

E reviver a alegria dessas pequenas coisas quando se está de volta em casa também não tem preço. As diferenças culturais a gente aprende aos poucos, tendo e oferecendo presença, buscando chegar de mansinho, respeitando o “dono da casa”, ouvindo com atenção, copiando modos e compartilhando diferenças. Perguntar antes e explorar com cuidado, respeitar e estar atento. E viver feliz no novo, se encantando com as diferenças como uma criança que aprende todo o tempo.

Aliás, sou do tipo curiosa, adoro encontrar um fio de meada em algo que me apaixona e ir desenrolando aos poucos. Em um livro do James Hilmann ele diz que as pessoas se dividem em árvores. Minha arvore é a das pessoas que adoram estudar, escrever, que se encantam com as artes em geral, que podem passar horas com uma xícara de chá e um bom livro. Me intriga uma pesquisa e me alegra o gosto do novo na boca, mas me obrigo a cuidar do corpo (depois de ler o Howard Gardner com suas inteligências múltiplas, aprendi que se uma linha fica muito diminuída impede as outras de se desenvolverem), então saio para caminhar todos os dias e como direito só para ver se aprendo melhor. Tenho alguns pensadores, filósofos, escritores e cientistas preferidos, mas fissura mesmo eu tenho por Matura, Ken Wilber, James Hilmann e David Deida… Gosto dos temas ligados às dinâmicas humanas, de entender as similaridades dentro da diversidade, de aprofundar os valores e princípios norteadores de todos nós, humanos de qualquer cultura.

Tenho mulheres incríveis na minha vida, inúmeras amigas, colegas e conhecidas, algumas criaturas maravilhosas que fazem parte do meu círculo mais íntimo e outras tantas admiráveis, com as quais adoraria ter a oportunidade de passar mais tempo.  São exemplos de um feminino brilhante, que precisaria de horas para descrever. (Aqui vale dizer que distingo mulher de feminino, entendendo o primeiro como uma construção social e cultural – concepção de gênero, e o segundo como uma energia criadora existente em machos e fêmeas, indistintamente).

A energia feminina é potente em luz, em vida, em cuidado e em criação, de sentidos à flor da pele. Trago comigo amigas de toda vida, pessoas maravilhosas que corporificam todo seu potencial e força transitando em ambos os espectros, em seus femininos delicados, intuitivos e amorosos e em seus masculinos cheios de foco, propósito e direção.

Estou na rede Héstia desde seu início e acompanho sua evolução com especial interesse e satisfação. É lindo observar o processo de engajamento que une tantas mulheres em torno de causas comuns, ver crescer o entendimento dos propósitos compartilhados e da riqueza em inteligência e construção coletiva que essa rede pode gerar. Saber que essa conexão, que começou com um grupo de amigas e amigas das amigas, se consolida como um espaço de apoio e troca de conhecimento e aprendizado é gratificante, mas o que me toca mais profundamente é o fato de ser um espaço de diálogo, de abertura e de escuta amorosa.

Tenho participado dos encontros, pessoalmente quando estou no Brasil e virtualmente desde que vim aos Estados Unidos, e o alto nível de qualidade dos temas, a profundidade dos convidados, a curadoria da Lu Sato e até os detalhes da infraestrutura são impecáveis. E tudo isso é um ativo da rede, que cada dia mais floresce e deixar ver e expandir suas potencialidades.

Para este ano, quero me entusiasmar com o simples, oferecer boas palavras e ser a melhor versão de mim mesma – em todas as situações que meu lado sombra descuide. Quero sentir gratidão, não só por ter saúde, família, trabalho ou projetos interessantes, mas também, se possível, quando as dores me ensinarem algo com seu trajeto tortuoso. Quero ficar perto de quem amo (mesmo virtualmente), rir quando puder rir e chorar se a dor apertar o peito.
Agradeço às minhas amigas do coração, mas expresso ainda mais profunda gratidão às integrantes que ainda não conheço, mas que já salvaram meu dia tantas vezes com seus depoimentos, respostas, vídeos e posts incríveis, exaltando que há como reaprender a ver, como ampliar o foco e pisar o novo passo, com mais segurança e fé, e com a certeza de que não se está sozinha”.

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