Criando filhos globais – por Elaine Komatsu

“Criando filhos globais”.

Essa foi a frase que eu ouvi de uma grande amiga minha, numa troca de experiências
e desabafos entre amigas-mães, que criam filhos pequenos e que se confrontam com
as dificuldades de gerir todos os papéis que temos dentro e fora de casa.
Às vezes me pergunto qual seria, na maternidade, o equivalente da sensação de
“reconhecimento por ter realizado um ótimo trabalho”. No mundo corporativo é fácil.
Os códigos são claros: cumpre-se a meta e se tem acesso à hierarquia, às promoções,
aos benefícios, aos bônus… E para se viver nesse mundo, é preciso muitas vezes e ao
menos em algum momento da carreira, viver a lei da selva, a teoria da evolução de
Darwin, o pensamento de Maquiavel, as lições do general Sun Tzu… Nem sempre é
belo como experiência, mas seguramente é um aprendizado para a vida.

Minha infância foi a de uma criança livre. Tenho memórias das sensações de
liberdade, das vitórias, das conquistas. Como quando andava de bicicleta na calçada
de casa, feliz e orgulhosa por ter conseguido me equilibrar sem as rodinhas de apoio.
Tenho uma foto desse feito. Então acredito que o olhar dos meus pais, principalmente
o da minha mãe, reforçava em mim essa alegria pela minha conquista. Brincar de
restaurante em casa era uma diversão. Me lembro dos primos que vinham e cada um
pegava uma banqueta, pratinhos, pratões, leite ninho, chocolate em pó (porque essa
mistura era deliciosa) para fazer o rodízio entre os donos de restaurante, garçons e
clientes. Aqui os papéis eram pela diversão e todos queriam fazer tudo. Não me
lembro da minha mãe estabelecendo ordem nessa nossa bagunça. Me lembro dela
uma vez com a alface na mão… mas acho que isso faz parte de outras memórias,
porque a tentativa da alface no meio do leite ninho não combina muito. Tenho
lembranças das apresentações de piano. Hoje, são memórias que me fazem rir, mas na
época acho que me faziam uma criança mais “bicuda que pianista”, já que por um
bom tempo as aulas não eram uma escolha minha. O frio na barriga da véspera das
apresentações era algo difícil. E até hoje o carrego comigo. Não sei bem como ou
quando ele nasceu, mas eu diria que é algo antigo e multifacetado. Apesar dessa
experiência permeada de momentos de teimosia, voltei a estudar piano depois dos 30,
para preencher um espaço que só a música consegue. Teve apresentação de fim de
ano. Toquei Zequinha de Abreu junto com o frio na barriga e o grupo de percussão.
Não foi perfeito, mas a excitação e a alegria de ter tocado durou todo o jantar. Eu
parecia aquela menina que se equilibrava na bicicleta.

Saí de Campo Grande aos 16 anos. Tinha passado na PUC-SP, em administração, mas
decidi trancar a matrícula e tentar a FGV, como meu irmão tinha feito. Nem tinha
certeza de que era administração que eu queria. Aos 15, 16 anos, quem tem certeza de
alguma coisa? Me lembro de uma entrevista que tinha visto na TV com uma super
diretora japonesa de uma cadeia internacional de hotéis. E fiquei impressionada e
imaginando como seria viver esse tipo de trabalho, de vida. Foram 6 meses de
cursinho intensivo, vivendo na casa da minha tia e deixando de viver a vida de uma
adolescente. Entrei na FGV. Fui trainee e fiz carreira no mundo editorial – na época
em que a revista Capricho, a Claudia, a Exame e a Veja representavam muito da
mídia impressa no país. Fiz pós-graduação na ESPM, curso de gestão no IBMEC e
MBA em Paris. E conheci meu marido. E comecei a quebrar paradigmas. Os que
havia estabelecido para mim.

Tomi completou 4 anos e Leila está com 1. Moro na parte da Suíça onde a língua
falada é o italiano, mas na escola se aprende também francês e alemão (as outras duas
línguas oficiais do país). Meus filhos frequentam a escola. E eu trabalho em casa.
Mãe, educadora, nutricionista, cozinheira, passadeira, motorista e esposa em tempo
integral. Sem férias, nem salário, nem bônus, nem prestígio, nem glamour – não que
esses dois últimos sejam fundamentais, mas eu diria que neste momento, o glamour
que me faz falta é uma taça de prosecco senza bimbi.

Se olho para tudo isso que vivi e se eu tivesse que acessar o que realmente me serve
hoje, seriam essas memórias de sensações que estão relacionadas a uma escolha
prazerosa (piano, pilates, natação, viagens…) e que tinham um fundo de superação, de
conquista, mas com uma leveza e uma poesia que há tempos eu não consigo mais
acessar. Tomi e Leila são sinônimos dessa poesia. Observá-los brincar, dormir,
mesmo argumentar (cada um do seu jeito) é uma experiência que emociona. É
impossível registrar todos esses momentos. Eles se transformarão em memórias e
sensações, que eu espero guardar pela vida afora.

Hoje, o difícil está sendo reencontrar essa poesia sem passar pelos meus filhos.
O relógio anda mais depressa. O cansaço é maior. As prioridades são outras. Este
texto está sendo escrito num desses raros momentos em que o tempo, a solidão e o
cansaço jogam em favor das palavras. Educar está sendo o trabalho mais valente e
ambicioso de toda minha vida. Uso a palavra “trabalho” não para implicar em
obrigação, mas sim para valorizar o que muitas vezes é desvalorizado. Eu escolhi
deixar o trabalho que tinha aqui, para ficar com meus filhos. Ser “dona-de-casa
(casalinga, mère au foyer, housewife) é muito pouco para o que se é de fato. Somos
todas educadoras, entre os vários papéis que assumimos. Criamos crianças globais,
cidadãos do mundo. E digo isso pensando nos meus próprios filhos, cuja mãe é
brasileira de origem japonesa, o pai é francês, de mistura alsaciana e tunisiana, que
nasceram na Suíça, que já rodaram milhares de quilômetros pelo mundo e que, nesse
caldeirão de culturas e experiências, ensinam seus próprios pais sobre as
possibilidades infinitas que essa nova fase de vida pode lhes proporcionar. To be
continued…

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