Aline Paffaro, uma Héstia que não tem medo de se reinventar e desenhar seu próprio caminho

Uma garotinha criada no interior de São Paulo. É assim que Aline Paffaro começa a nos contar sua história. Desenhar sempre foi sua paixão: “Faço isso para me expressar e, quando criança, fazia isso para chamar a atenção dos adultos. Minha mãe brinca que o único jeito de me fazer ficar quieta era me dar lápis de cor para brincar”. Ela diz que sempre foi de falar muito, ter muitos amigos e contar histórias, mas nada era mais importante que papel e lápis de cor.

Desde o início do Ensino Médio, havia uma certeza: Aline queria trabalhar com desenho, ainda que não soubesse exatamente que caminho seguir. Pelas dificuldades da área, ela acabava sendo desencorajada, especialmente por seu pai, a seguir carreira como artista. Apesar disso, e de ter sido criada em cidade pequena, seus sonhos sempre foram grandes. Assim, ela foi estudar artes plásticas na UNICAMP, mas acabou desistindo. O mesmo aconteceu na PUC. “Depois, comecei Design Gráfico em outra faculdade e larguei de novo por incentivo de uma professora maravilhosa que dizia que eu devia tentar ir para São Paulo se queria mesmo isso para mim.”

Já na capital, Aline fez Design Gráfico na Anhembi Morumbi e começou a trabalhar na área. “Eu achava que queria trabalhar com publicidade e propaganda, então passei por várias agências até atingir meu sonho, aos 21 anos, que foi trabalhar em uma das agências do Grupo ABC”, detalha. Ainda que tenha aprendido muito com a experiência, isso acabou debilitando sua saúde por trabalhar muitas noites. Foi assim que, um pouco saturada e sem saber o que fazer com a carreira (“crise de carreira aos 21, veja bem”, brinca), ela foi atuar no marketing de uma empresa na cidade em que cresceu, mas ainda não era bem isso que ela desejava. Desde então, Aline já passou por muitas fases e metamorfoses. Desafios também não faltaram em sua história, afinal, ser uma mulher lésbica no Brasil não é dos cenários mais fáceis. Essa foi, inclusive, a razão pela qual ela e a esposa trocaram o País pelo Canadá. “A ideia partiu da minha esposa e do seu medo constante de algumas coisas serem realmente difíceis para nós. Não passava uma semana sem uma história de preconceito ou assédio para contar. A gente ouve histórias bem tristes de outros casais por aí. Então, a decisão veio muito motivada por essa razão: o Canadá é considerado o país mais gay friendly do mundo e é comum casais homossexuais com filhos aqui e nos Estados Unidos.

Conheça agora um pouco mais sobre essa mulher que está sempre buscando se encontrar e realizar seus sonhos, sem medo de recomeçar e redesenhar seu caminho quantas vezes forem necessárias.

“Participei de um evento maravilhoso do Google, o Startup Weekend, e posso dizer que conhecer o mundo da tecnologia e das startups abriu meu horizonte um bocado. A ideia do meu time, e nossa execução, agradou a todos e nós ganhamos o primeiro lugar. Tentamos por alguns meses fazer nossa primeira empresa nascer e, bom, nem preciso dizer que foi um fracasso, né?

Junto com o primeiro lugar, ganhamos a consultoria de uma aceleradora e foi o primeiro passo para mudar meu mindset e minha carreira para sempre. Decidi que queria trabalhar numa startup, não importava muito qual. E a vida surpreende quando você está se mantendo em movimento, pelo menos é o jeito que eu penso… Arrumei um emprego no Pagar.me (fintech paulistana conhecida pelos fundadores serem dois adolescentes geniais) e foi uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Aprendi o que chamo carinhosamente de “super poder” ou “chave mágica”: você pode fazer QUALQUER COISA que esteja disposto a fazer. Só depende de você, entende? Eu entrei no Pagar.me e era jogada de um lado para o outro entre funções e coisas que eu nunca pensei que era capaz ou nunca tinha ouvido falar, mas, de repente, lá estava eu fazendo essas coisas acontecerem. A maioria das vezes aos trancos e barrancos, mas estavam acontecendo e isso era incrível. Posso dividir minha carreira entre antes e depois dessa startup, com certeza. Conheci pessoas maravilhosas que me ensinaram grande parte do que sei hoje.

Depois disso, testei muitas outras coisas na carreira. Eu crio uma hipótese e sigo fazendo coisas para chegar naquela direção. Foi assim a minha carreira toda: um passo de cada vez e uma ideia por vez. Às vezes, eu estava certa, às vezes não, mas sempre me ensinou muito. A última hipótese foi: ‘eu quero trabalhar com video games’. Bom, aqui estou eu há 2 anos e meio sendo Designer de Interação (UI/UX) para games. São os produtos mais legais que já fiz na vida!

Minha vida pessoal também sempre foi cheia de surpresas. Sou uma mulher lésbica e o ambiente no Brasil, apesar da constante melhora, não é dos mais receptivos a casais homossexuais. Ainda mais com filhos. Eu, que nunca quis sair do Brasil, talvez por meus bisavós terem sido imigrantes e acolhidos pelo nosso País, acabei me mudando para o Canadá. Morar no Brasil era realmente complicado e a verdade é que, com o tempo, você se acostuma com coisas ruins que nunca deveria ter se acostumado. E uma coisa sou eu, adulta, lidar com o preconceito e a chacota constante. Outra coisa são os meus futuros filhos. Nós não gostaríamos de fazê-los passar por isso.

Nós decidimos nos mudar no início de 2017 e, no final de 2018, estávamos nos mudando para testar a nossa mais nova hipótese. A Stefanie, minha esposa, aprendeu inglês sozinha e sempre foi muito estudiosa. Como o mercado aqui é aquecido para a área de tecnologia, ela começou a procurar emprego e participar de entrevistas constantemente. Conheceu o Vanhack e os ajudou a entrar na comunidade de Mulheres Tech no Brasil. Uma hora aconteceu. A carta chegou, o processo de imigração foi longo e exigiu muita dedicação e resiliência, mas o visto saiu! Nenhuma das duas tinha saído do país e, quando cheguei aqui, eu não falava inglês o suficiente para sobreviver sem a Stefanie. Bom, estamos aqui há 7 meses e não foram meses fáceis.

Eu falo isso para todo mundo que me pergunta sobre imigrar: mudar de país é muito mais sobre resiliência e muito menos sobre glamour e fotos bonitas no Instagram. Pelo menos para nós. É sobre resiliência porque você chega em uma terra estranha, com uma cultura estranha, com produtos estranhos, uma língua estranha e ainda faz tudo isso sem conhecer um único ser humaninho que possa te dar um abraço caloroso e uma xícara de café quando o desespero bate. Você tem um choque de realidade que chega antes da saudade e você nem sabe o que está acontecendo, apenas se encontra naquele turbilhão de emoções. E, cara, para nós ainda foi ‘fácil’ comparado a muita gente, né. A Stefanie veio empregada e eu trabalho remoto. Tem muita gente que vem com os filhos e muitas dúvidas na mala. Só isso. É realmente um processo que exige muita coragem, é completamente diferente de viajar. 

Imigrar é a coisa mais desafiadora que já fiz na vida, pelo menos até agora. Mas também é a experiência mais gratificante e recompensadora em aprendizados e desbloqueios que já tive. É realmente muito transformador sair da zona de conforto por completo, porque realmente força o seu cérebro a criar novas conexões e descobrir novas formas de se adaptar e se reconstruir. É fenomenal. Nós mudamos e crescemos muito nessa nova fase.

Eu estou aprendendo, aos poucos, a valorizar minha própria história, o que tem exigido muito de mim mesma. Aprender a se amar e se conhecer é TÃO essencial e constantemente penso que gostaria de ter começado essa jornada antes. Eu me lembro de já ter pensado: ‘Se eu fiz tantas coisas sem acreditar em mim, imagina se eu acreditasse?’. Então eu quero testar isso agora. Quero cada vez mais aprender a me dar algum crédito e valorizar minhas conquistas. Até porque, não importa muito o que elas representam para outras pessoas, mas sim o que elas representam para mim. Eu sei o quanto eu tive que lutar e ainda luto contra os meus medos e inseguranças. Não me considero corajosa, porque eu acho que isso significa ausência de medo e eu tenho muitos medos. Mas a minha máxima sempre foi ‘Tá com medo? Vai com medo mesmo!’.

Eu aprendi muitas coisas ao longo do tempo. Inclusive, que não sei nada, mas que preciso acreditar em tudo – especialmente em mim mesma. Também aprendi a ser menos ansiosa a respeito do futuro e menos passiva com aquilo que me aconteceu de ruim no passado, a valorizar minha história, meus desafios, cicatrizes e conquistas. A valorizar mais a minha rede de apoio, que é minha família e meus amigos próximos. A valorizar cada pessoa que conheci na minha jornada e cada situação que vivi com elas porque todas, boas ou ruins, me ensinaram muito e me trouxeram até aqui. E eu gosto de quem eu sou hoje.

Pensando no futuro, tenho objetivos a curto e médio prazo e uns sonhos mais malucos, tipo me aposentar aos 35 anos e viver num trailer no meio das montanhas com a minha esposa e meus 3 filhos. Mas, tentando ser objetiva, nós estamos aqui há pouco tempo e temos mais dúvidas do que certezas. Agora, o principal é conquistar uma rotina saudável entre trabalho e vida pessoal, conhecer uns lugares legais no Canadá, fazer uns amigos gringos e estudar muito inglês. Ou seja: conquistar uma rotina simples e normal é o passo um.

Eu acredito que todo ser humano tem dentro de si uma força enorme que busca viver em plenitude. Encontre essa força na sua história como um todo. Ninguém é só conquistas e sorrisos. Ninguém é só dias de felicidade e risadas mil. As pessoas mais incríveis que já conheci e que admiro muito têm histórias marcadas por muita dor e tristeza profunda, mas continuaram lutando. Nós somos seres complexos e completos, cheios de medos e frágeis diante da imensidão de possibilidades que é a vida, mas estamos aqui para buscar e dar o nosso melhor. Acho que o melhor conselho que posso dar é que você busque valorizar quem é e procure amar quem você é sem depender da aprovação e da opinião dos outros. A valorização e voz de apoio mais importantes que você precisa na vida são aqueles que vêm de dentro de você mesma. Não é uma jornada fácil, viu? Mas garanto que vai valer muito a pena! Quer outro conselho? Busque boas coisas para si e para as pessoas ao seu redor. Quando a gente quer o bem eu acredito que o universo retribui.”

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